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A flauta dos raros

Por: Bárbara Fragoso

Andava distraída pelas ruas da cidade. Gotas d'água pingavam na minha cabeça. Eu não sabia aonde ia... Só queria andar e ouvir o barulho da chuva que me rodeava. Meu silêncio me incomodava. Fui atravessar o sinal, mas os carros não paravam. Tinham pressa. Continuei tentando passar, mas foi inútil.

Eu não estava só. A menina dos risos estava ao meu lado. Ela tinha os cabelos cacheados e um belo sorriso. Sempre demonstrava alegria e era super misteriosa. Parecia guardar em si algo não tão fácil de compreender.

Cumprimentei-a. Como de costume, ela retribuiu sorrindo. Durante a nossa conversa, notei que ela trazia consigo um instrumento. Fiquei curiosa e perguntei o que era aquilo. Era uma flauta, não comum. Explicou-me que quando as notas e o som soavam, vários sonhos apareciam. Não eram todos que conseguiam fazê-la tocar. Ela me disse que só os raros.

O tempo parecia ter parado. Ela falou de vários sonhos. Fiquei impressionada com tudo o que ouvia. Certa vez, um mar se apaixonou por uma menina. Eu pensei que parecia aquelas histórias que eu ouvia antes de dormir. Contou também que os palhaços e as bonecas de pano choram. Eu não conseguia acreditar. As lágrimas corriam até o ribeirão e formavam cachoeira!

Para mim, os palhaços só estavam ali para fazer a gente rir e nada mais. E, às vezes, eu tinha medo deles. Eu entendi que além de serem palhaços sorridentes, eles podiam ficar tristes. Eles tinham, além do palhaço, vários personagens dentro de si. Por isso, também choravam.

Riso virava feijão, as palavras eram recicladas. O telhado e o porão mudavam constantemente. Ela falou que até tantas outras notas musicais eram reinventadas! Nos sonhos, ela era super esquecida. Deixava a luz da cozinha acesa e não fechava a geladeira. Não limpava nem os pés. Guardava a fé em nós.

Um dia, uma sereia muito bonita apareceu. Tinha poesia e tesouro escondido, mas a onda levou todo o esboço de idéia de fim. E, infelizmente, ela tentou jogar-se da pedra mais alta! Aí, uma estrela caiu no mar e se apagou.

A menina dos risos fez desta terra um cenário e me disse que era preciso eu livrar-me das minhas marcas e criar asas. Tudo aquilo valeu apena. Ela não tinha pressa pra passar, mas era tempo de decolar. Confessou que aquela flauta era mágica e explicou-me que mesmo se as notas fossem tocadas iguais, os sonhos mudariam. Eles nunca seriam os mesmos. Tudo sempre ganhava vida, nunca estacionava.

Eu queria ter uma flauta daquela. Ela soou algumas palavras, que só quem era do Teatro Mágico podia tê-la. Perguntei como fazia para entrar lá. Só que não bastava que eu entrasse, eu tinha que ser platéia de mim mesma.


Comentários

Weber disse…
Sua flauta me encantou =D