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Mostrando postagens de 2011

Franca

Escuridão das insólitas fragrâncias. 
Francas respostas das fracas e frívolas vontades de trazer, para perto de mim, o fim das esperas.

Bárbara Fragoso 

De ré

Era para ser, mas não fui.  Era para correr, mas preferi andar.  Era para andar, mas preferi parar.  Era para parar, mas dei ré.  Reparei. Parei.

Bárbara Fragoso 

Ausente

Criei o seu personagem: com ou sem tinta. Compulsivamente estudei, ouvi  e mastiguei cacos para estar mais próxima de ti. Claves e máscaras caras caíram. Metade de mim é distante. Patativa respondeu: E a outra metade ausente.

Bárbara Fragoso 


Dissonantes

Não era justo. Horas e dores. 
No frio e na madrugada, a recitar e cantarolar teus versos. 
Senti-me aprisionada em prantos. 
Não estava pronta a cuspir e esquecer tuas consoantes dissonantes.

Bárbara Fragoso 

Cúmulo

Tempestade.  Novo tabernáculo estava prestes a aparecer.
Aplausos. Chovia sensacionalismo. Especulei o espetáculo.  Cúmulo e surpresa. 
Frieza. A essência correu antes que o barco afundasse.

Bárbara Fragoso 

Gotas na xícara

Tardezinha e pensamento oculto. Sentia vontade de abraçar o que viria, mas, ao mesmo tempo, contentava-se com o velho café. Gotas pingavam na xícara. Nada de adoçante. Ficava difícil criar expectativas quando envenenavam-se as verdades.

Bárbara Fragoso 

Corrimão

Com pressa, na contramão.
Corri das dúvidas.
Correram. Cor e mão.
Corrimão.
Eu só corro.

Socorro!

Bárbara Fragoso

Sobras

Vai. Larga de covardia. Conte-me um pouco dos teus dias. Não quero sorriso nem cais. Que caia um pouco de ti. Luz e fogueira; sombras e sobras. Muito bem. Eu queimava por dentro.Sinceridade foi o único pedido.
Eu já sabia.
Eu já sabia.

Bárbara Fragoso 

Bonne chance

Por: Bárbara Fragoso

Au revoir.
Je vais partir...
Ne demandez pas où je suis.
Soyez bien.
J'ai besoin de moi.

Tum tum tum obsoleto

Por: Bárbara Fragoso

Ela gritou, deu birra e chamou-o de bobo. Não queria visitas. Pediu que ele a obedecesse e não abrisse a porta. "Não. Eu é que mando em você. Não insista", ele disse. As palavras ecoaram nos ouvidos da menina sem manhã. Não era aquilo que ela queria ouvir. O rosto ardia. Ela queria ser mais fria. Não dava. Resistia.

"Cadê você?", seu ser gritava. Comentário infame. Afinal, ela adorava a tal liberdade que tinha. Como era bom o gostinho! Ela acordava, abraçava-a e alimentava-a de ocasiões. Achava aquilo lindo e leve, mas o pesado e obsoleto queria ser o centro das atenções. A menina detestava isso. Não queria visitas e ponto final. Ainda tinha esperanças de convencê-lo e transformá-lo em pedra. Ele franziu a testa e disse que, sem ele, ela não era nada. A garota, já cansada, pediu que ele se calasse.

Silêncio.

Tum-tum tum-tum. Ele ainda batia. Ela, abatida, desprezava-o. Tum tum tum. Batiam à porta. Plena visita inesperada? Tum-tum tum-tum. Ele não …

Lareira e feras

Por: Bárbara Fragoso

A fita rodava e rodava. Calma! Chega de pressa. Ela pegou o controle remoto e deu pause. Analisou a cena. Feras por todos os lados. Sorrisos tortos. Escondiam-se e mostravam os dentes. A saliva pingava. Estavam prontas para triturar.

Beira da morte. Ou ela dominava e amansava, ou deixava que elas a engolissem. A lareira não esquentava. Morte lenta e decisão. Embebedou-se. Copo de sabedoria. Ferviam ideias. Novo começo, mas ainda sem fim. Vazio ao seu lado.

Ela sabia por quem precisava respirar.

Âmago

Por: Bárbara Fragoso

Distante de casa e mais perto de mim.
Saudade amarga e doces lembranças restavam-me daquele céu e daquele tempo.
Noite de lua cheia e imprevistos.
Corre-corre.
Volta.
Correm rios.
Cascatas de mim.
Inquietude da alma em meu âmago habita.

Nem adeus

Por: Bárbara Fragoso

Era noite no céu de palavras. Ela brincava de pique-esconde com sua sensibilidade e tentava acender o abajour. Nada de uísque ou chá. Nem os pensamentos eram clareados. Piscava e piscava. A insônia recheava a sua alma de ansiedades que não tinham fundamento. Ela estava disposta a descer daquele barco sem direção. Cheio de tormentos e queria carregá-la com falsidades e mentiras. Ele tentou engolir o tempo e vendar seus olhos, mas não conseguiu.

Ela era pequena e grande. Mar escuro e incerto, mas não o suficiente para ofuscar completamente a visão. Nada. Ela nadou. Ficou encharcada de imbecilidades que tentavam afogá-la. Raiva e tremor. Tentava confundí-la com o canto falso que roubou da sereia. Deus, esse barco não merece nem adeus.

Inusitado

Por: Bárbara Fragoso

Saia de pregas. Blusa branca de mangas compridas. Colete vermelho e botões dourados. Meia branca até o joelho. Cabelo bem arrumado e voz aquecida. Era dia de semana. Eu e os outros integrantes do coral entrávamos no ônibus para mais uma apresentação. O maestro disse que o local onde íamos era diferente. Pensei logo que não me surpreenderia.

O ônibus parou. Arrumei a gravata da minha roupa e estiquei a meia que escorregava. O Hino Nacional não saía da minha cabeça. Eu tinha medo de cantá-lo, pois me dava vontade de rir. Passaria vergonha se desse as minhas gargalhadas com o que a minha imaginação fértil criava.
Preferia cantar Go down Moses, Negro spiritual. Eu adorava quando um dos integrantes, de voz muito grave, fazia o solo: "When Israel was in Egypt's land: Let my people go,/ Oppress'd so hard they could not stand, Let my People go."

Mas, nesse dia, nem essa música, nem a francesa, nem a espanhola entraram no repertório. Tive que me conter com a …

Confiança em pó

Por: Bárbara Fragoso

Amar?
É o que tento fazer todos os dias.
Buscar?
Destino horas.
Quanto mais procuro respostas, maior é a pilha de dúvidas à minha frente.
Roubar?

Aconteceu comigo. Foi pior que me deixar sem nenhum centavo na rua deserta e sem postes. Arrancaram violentamente o meu direito de saber toda a verdade. Ah! Aquilo me doeu. Eu guardava o potinho da confiança em local privilegiado. Chegava a ser abafado. Quando resolvi abrir para te mostrar, você soprou. Mudei de cor. Aliás, fiquei sem cor. Correram rios de mim. Em meio à tempestade de ilusão, tropecei em mim mesma. Não ia ficar caída. Estiquei o meu braço e me ergui. Sim, eu era minha melhor amiga.

Logaritmos e Nietzsche

Por: Bárbara Fragoso

Inglês, francês, latim, grego, italiano e espanhol.
Sábio em línguas e contos. Maravilhas do céu e podridão do homem.
Histórias doces, recheadas de fel.
Sobrevoamos nos logaritmos e eu, muda, parecia uma criança a lhe observar.
Falei de Nietzsche.
Com os olhos arregalados, Perona me interrogou.
Para ele, aquele que afirmou a morte de Deus não merecia meu tempo.
Adorava me desafiar nos pensamentos gritantes e ambíguos.
Eu sabia que não havia criado Deus, para ele me criar.
Dispunha do meu tempo e punha-me a rezar.

Presente amarello

Por: A.J.

Barco a vela
Avista canto e grito, sereia
Bárbara visão aquela
Voz em noite candeia

Entre olhos, pele e orelha
Passeiam tons, sons e ovelhas
Paisagem que é bela
É ela, de vez, Barbarella.

Singela, magrela e vermelha
Canta, dança, pula e semeia
A paz, quem traz, tanto faz
Mágico teatro é capaz.

Bárbara menina
A vida ensina
Caminha e seduz

Te empresto abrigo
Eu canto contigo
Com passos de luz

Ele e a lua de metal

Por: Bárbara Fragoso

Peguei um trem. Dessa vez, ele não ia para qualquer destino. Me afastei da solidão e dos meus medos. Dei um salto para entrar. Pauta na mão. Eu tinha uma missão. Ela é secreta. Não vou contar.

Passei por becos vazios. Andei e andei. O semáforo fechou e, logo, aquele local tornou-se familiar. Pedi informação. Não conseguia chegar no endereço anotado. Uma moça tentou me ajudar. Perguntou para várias pessoas. Nada. Bebi um copo d'água e respirei fundo. Os minutos corriam. Até que um senhor falou brevemente que era só atravessar a pista e eu já estaria lá.

Era um encontro. Eu tinha sede. Sede de olhá-lo nos olhos e ouvir suas histórias. Logo, avistei a casa de sobrado. Ele estava no segundo andar. Gritei e ele me viu. Desceu as escadas e me pediu que aguardasse.

O sol estava prestes a se pôr. Sentei-me no sofá. E, enquanto esperava, vi a lua de metal. Quantas vezes eu e ela já tínhamos nos encontrado... Mas sempre a via de longe. Dessa vez, ela sorriu p…

Folhas do soneto

Por: Bárbara Fragoso

Lá estava eu, imersa nos pensamentos e canções.
Precisava abrir as janelas da alma, respirar fundo e criar raízes.
Aos poucos, ramificações surgiram.
O sol já cintilava na palma das minhas mãos.
Sim! Eu podia criar o mais longo soneto.
Deixei-me levar pelos acordes que surgiram.
Nem o vento podia roubar as folhas do meu pensamento.

De mansinho

Por: Bárbara Fragoso

Levantei-me da rede.
Fui balançar-me ao vento, sentada à beira do mar.
As águas chacoalhavam fortemente.
De masinho, ondas beijavam os pés.

Estrelas-do-mar e brilho nas mãos.
Calor dos céus me abraçava.
Me despedi e peguei a cadeira.
O sol já declinava.

Outrora autora

Por: Bárbara Fragoso

Pode se calar e ouça a sinfonia.
Mantenho os pés no chão.
Cada dia é dia de folia.
Aprendo a amar.
Nada de decepção.

Que tal sorrir?
Outrora foi autora de ensinamentos.
Vela e cais. Não me aposento.
Deixo-me ir.

Poeira cálida

Por: Bárbara Fragoso
Pessoas passavam de bicicleta. As árvores faziam tapetes frutíferos, com as folhas verdes e pálidas. Lá, do segundo andar, ela observou a praça da cidadezinha. Sobrava espaço. Na casa pequena não tinha ventilador. Ela se aquecia com o instante.

Ao anoitecer, algo prevaleceu. Voz grave e delicada misturou-se ao dedilhado do violão. O som era pura poesia. Como aquilo alvoroçava os sentidos! Balançava o mundo. Pingos brotavam nos olhos. Aquela música era cálida. E só sua.
Desceu as escadas às pressas. Sentou-se com a fogueira. Falou do seus dias e noites; das conchas e poeira que a acompanhavam. A casa estava vazia sem o balé. As estrelas já brilhavam e o céu recebia suas preces. Em poucas horas, ia amanhecer. O café seria requentado. A mágica não acabara.

Cacos e humor de algodão

Por: Bárbara Fragoso
Horas e horas a navegar com Goethe. Respirei e decorei suspiros de Mozart e de algodão. Sentei-me com Clarice Lispector e choramos com tantas semelhanças. De que adiantava tudo isso? Minha mala da vida havia quebrado.
As rodinhas não corriam mais e os insetos interiores rastejavam com as minhas ignorâncias. Eu? Pobre viajante. Preferi que os cacos sumissem. Busquei nova bagagem. Novo ar. Calcei os pés. Engoli depressa o humor e saí a vagar.

Fernando, Anitelli e seus vários personagens

Por: Bárbara Fragoso

Roupa vermelha. Sorriso estampado. Sapatos extravagantes. Rimas na ponta da língua. Barba comprida. Cara pintada. O ator, poeta, músico e compositor Fernando Anitelli é o responsável pela criação do projeto O Teatro Mágico. Com jeito brincalhão, o filho do “Seu Odácio” e da “Dona Delmina” explica que o palhaço é um dos personagens que o compõe e que representa toda a sua verdade.

Nascido em Presidente Prudente, em 1974, o cantor fala que antes de criar a trupe, cantava na banda Madalena 19. O amigo Danilo Souza, que foi o baixista da banda na época, contou dos dez anos de existência dela e das várias tentativas de gravar um CD, que não obtiveram êxito. Eles viviam um momento bem difícil, de desânimo. No entanto, resolveram ir para os Estados Unidos, com a intenção de trabalhar e definir os rumos que tomariam.

Trabalharam de garçom ilegalmente. Danilo voltou ao Brasil e Fernando ficou. E foi lá que nasceu a inspiração para a criação do projeto, com a leitura do livro …

Saia rodada e alma cantada

Por: Bárbara Fragoso

Lá era muito grande. Eu me perdia em meio aos olhares e barulhos vindos de todas as direções. Fechava os olhos e abria de uma vez para ter certeza de que, realmente, eu pisava ali. Passei por um trânsito lento. Vales e montes escuros faziam caretas. Tive que conter o medo e falar para mim mesma que estava bem.
Finalmente, consegui chegar a tempo, mas precisava ser rápida. Corri e vesti a roupa estampada. Me sentei na primeira fileira. Estávamos longe e perto. Você me viu. Enquanto me olhava, eu disfarçava. Deixei-me levar pelo seu som. A minha alma cantava.
A apresentação acabou. Subi discretamente as escadas. Tinha um moço em frente às cortinas do teatro. Ele estava pronto para me impedir de entrar. Falei o meu nome e ele ainda relutou. O seu rastro passou. Para os acordes não havia mais suspensão.

Sons sem pausa

Por: Bárbara Fragoso

Faltavam poucas horas para tudo mudar. Ela embarcaria em um novo mundo: de novas melodias e acertos. Lá, ela ia ver o movimento e se arriscaria sem medo. A ansiedade batucava fortemente no peito. Ela se encontraria em breve. Emoções estavam por vir. Estava prestes a cantarolar sem pausa. O tempo ia sentar. Nem ele ia querer partir.

Cortinas do luar

Por: Bárbara Fragoso

As estrelas fechavam as cortinas do luar.
O sol já espreguiçava.
Ela pensou em ir embora e sem demora.
Sem deixar cartas e nem rastros.
Mas logo viu que aquelas calçadas pertenciam aos seus passos.
Era uma fuga? Sim.
Ela vivia piscando.
Ora surgia, ora sumia.
Ela era sua única companhia.

Brisa leve

Por: Bárbara Fragoso

Já era tarde. O relógio marcava 1h. As estrelas cintilavam no céu azul-marinho. Todos já estavam cansados e dormindo. As vizinhas resolveram deixar a fofoca para o dia seguinte. As crianças já haviam dado o beijo de "boa noite". O guarda do prédio cochilava sob o jornal do dia que se passou. As luzes ainda brilhavam no vale escuro. A menina perambulava sozinha pelas calçadas. Ela pegou o espelho e viu-se chorar.
Amanheceu. O sol batia na porta dos olhos da menina sem manhã. Ele a convidava para uma volta. Ela não sentia o peso do corpo. Viu ao seu lado um pedaço de pão e um copo de café. Alguém tocou-lhe os ombros. Ela se esquivou. Com receio, olhou para trás. Nada viu. Levantou-se rapidamente. Correu e correu. Perdeu o fôlego e abaixou a cabeça. Correu e correu. Queria descobrir quem a tocou. Se cansou e nada alcançou. Adormeceu. Não sabia ela que era a brisa amante que triscava nas suas costas.