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Fernando, Anitelli e seus vários personagens

Por: Bárbara Fragoso

Roupa vermelha. Sorriso estampado. Sapatos extravagantes. Rimas na ponta da língua. Barba comprida. Cara pintada. O ator, poeta, músico e compositor Fernando Anitelli é o responsável pela criação do projeto O Teatro Mágico. Com jeito brincalhão, o filho do “Seu Odácio” e da “Dona Delmina” explica que o palhaço é um dos personagens que o compõe e que representa toda a sua verdade.

Nascido em Presidente Prudente, em 1974, o cantor fala que antes de criar a trupe, cantava na banda Madalena 19. O amigo Danilo Souza, que foi o baixista da banda na época, contou dos dez anos de existência dela e das várias tentativas de gravar um CD, que não obtiveram êxito. Eles viviam um momento bem difícil, de desânimo. No entanto, resolveram ir para os Estados Unidos, com a intenção de trabalhar e definir os rumos que tomariam.

Trabalharam de garçom ilegalmente. Danilo voltou ao Brasil e Fernando ficou. E foi lá que nasceu a inspiração para a criação do projeto, com a leitura do livro “O lobo da estepe”, de Hermann Hesse. “Quando li sobre o teatro mágico do escritor alemão, percebi que era justamente o que queria montar: um espetáculo que juntasse tudo numa coisa só, malabaristas, atores, cantores, poetas, palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha imaginação pudesse criar”, contou.

Fernando se identificou com muitas coisas do livro e que se identifica até hoje. Para ele, as palavras ali contidas se renovam. Sempre se encontram nuances e metáforas que falam muito da pluralidade e da redenção do ser humano. “É isso que trata o projeto do Teatro Mágico e a nossa vivência. É buscar ser plural, aprender, se ramificar e criar raízes”, falou. Lembrou-se das palavras de Hesse, quando o escritor enfatiza que "ser é ousar ser".

Às vezes, parecia que o seu pensamento estava longe. Era como se ele estivesse mergulhado no passado e revivesse aquelas palavras. Aos poucos, ia falando da infância, que gostava de brincar com as palavras e inventar pequenas melodias. A família se reflete muito no seu trabalho. Quando começou a falar sobre o pai, Seu Odácio, ele se emocionou. “Ele é uma pessoa fabulosa, é o fã número zero, pois ninguém é mais fã do que ele”, ressaltou.

O tempo parecia ter parado. Ele se pronunciou sobre vários artistas e tagarelou a literatura. Eu havia embarcado no seu passado. Ele comentou sobre a sua poesia Os insetos Interiores, inspirada nas obras de Kafka, A Metamorfose e O Processo, que foi justamente um período árduo, sofrido, onde apareciam imagens nubladas, os insetos interiores. “Lá, falo muito do ego, do nosso ser interior e do quanto ele é forte para nos prejudicar”, revelou.

Tinha muito barulho onde estávamos. Não foi o suficiente para atrapalhar a conversa. Para ele, é fundamental que saibamos brincar de viver. Fiquei curiosa, pois não entendia muito bem o que ele queria dizer. Ele acrescentou: “Quando a gente é capaz de brincar, a gente é capaz de compreender o que está ao nosso redor. Se esquecemos de brincar, é quando estamos no controle remoto”.

Ao optar pela arte “independente”, vários problemas apareceram. Não era fácil viver de produção cultural e trabalho sem patrocínio. Anitelli admitiu que, infelizmente, não é algo democrático. A rádio, por exemplo, é uma concessão. Em vez de trabalhar a comunicação para o público, ela trabalha, na verdade, para o capital. Quando a internet surgiu, passou a ser uma liberdade horizontal. Segundo ele, ser “independente” é a escolha de ter uma relação direta e transparente com o público, defendendo a bandeira da música livre.


O idealizador do TM explica que viver e morrer são, simplesmente, o cotidiano. É saber ter paciência e brincar com as coisas. Ele não se considera um artista. Acha que é somente um militante da música. “A música, para mim, é brincar. Viver, para mim, é brincar, é entender o ritmo, dá onde flui”, concluiu.

Comentários

Kamilla disse…
Sou cada dia mais fã, Barbarella!!! Ficou ótimo! Beijos
aline disse…
Aiii que lindooo =] Vc falou com ele quando? Vc viu que o Odacio Anitelli falou sobre seu post?? Beijos @alinee_souza
Ká Ferreira disse…
Parabéns migs, o seu texto ficou ÓTIMO (como sempre) !
Cássia disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Cássia disse…
O projeto "O Teatro Mágico" é admirável! O sucesso da trupe é graças a crença de que a música tem que ser livre, além da verdade e emoção que é passada ao público através das letras das canções e das apresentações excepcionais!
E, parabéns, Bárbara, gostei mto da construção do seu texto!
Bárbara Fragoso disse…
Este comentário foi removido pelo autor.