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Mostrando postagens de Junho, 2011

Inusitado

Por: Bárbara Fragoso

Saia de pregas. Blusa branca de mangas compridas. Colete vermelho e botões dourados. Meia branca até o joelho. Cabelo bem arrumado e voz aquecida. Era dia de semana. Eu e os outros integrantes do coral entrávamos no ônibus para mais uma apresentação. O maestro disse que o local onde íamos era diferente. Pensei logo que não me surpreenderia.

O ônibus parou. Arrumei a gravata da minha roupa e estiquei a meia que escorregava. O Hino Nacional não saía da minha cabeça. Eu tinha medo de cantá-lo, pois me dava vontade de rir. Passaria vergonha se desse as minhas gargalhadas com o que a minha imaginação fértil criava.
Preferia cantar Go down Moses, Negro spiritual. Eu adorava quando um dos integrantes, de voz muito grave, fazia o solo: "When Israel was in Egypt's land: Let my people go,/ Oppress'd so hard they could not stand, Let my People go."

Mas, nesse dia, nem essa música, nem a francesa, nem a espanhola entraram no repertório. Tive que me conter com a …

Confiança em pó

Por: Bárbara Fragoso

Amar?
É o que tento fazer todos os dias.
Buscar?
Destino horas.
Quanto mais procuro respostas, maior é a pilha de dúvidas à minha frente.
Roubar?

Aconteceu comigo. Foi pior que me deixar sem nenhum centavo na rua deserta e sem postes. Arrancaram violentamente o meu direito de saber toda a verdade. Ah! Aquilo me doeu. Eu guardava o potinho da confiança em local privilegiado. Chegava a ser abafado. Quando resolvi abrir para te mostrar, você soprou. Mudei de cor. Aliás, fiquei sem cor. Correram rios de mim. Em meio à tempestade de ilusão, tropecei em mim mesma. Não ia ficar caída. Estiquei o meu braço e me ergui. Sim, eu era minha melhor amiga.

Logaritmos e Nietzsche

Por: Bárbara Fragoso

Inglês, francês, latim, grego, italiano e espanhol.
Sábio em línguas e contos. Maravilhas do céu e podridão do homem.
Histórias doces, recheadas de fel.
Sobrevoamos nos logaritmos e eu, muda, parecia uma criança a lhe observar.
Falei de Nietzsche.
Com os olhos arregalados, Perona me interrogou.
Para ele, aquele que afirmou a morte de Deus não merecia meu tempo.
Adorava me desafiar nos pensamentos gritantes e ambíguos.
Eu sabia que não havia criado Deus, para ele me criar.
Dispunha do meu tempo e punha-me a rezar.

Presente amarello

Por: A.J.

Barco a vela
Avista canto e grito, sereia
Bárbara visão aquela
Voz em noite candeia

Entre olhos, pele e orelha
Passeiam tons, sons e ovelhas
Paisagem que é bela
É ela, de vez, Barbarella.

Singela, magrela e vermelha
Canta, dança, pula e semeia
A paz, quem traz, tanto faz
Mágico teatro é capaz.

Bárbara menina
A vida ensina
Caminha e seduz

Te empresto abrigo
Eu canto contigo
Com passos de luz

Ele e a lua de metal

Por: Bárbara Fragoso

Peguei um trem. Dessa vez, ele não ia para qualquer destino. Me afastei da solidão e dos meus medos. Dei um salto para entrar. Pauta na mão. Eu tinha uma missão. Ela é secreta. Não vou contar.

Passei por becos vazios. Andei e andei. O semáforo fechou e, logo, aquele local tornou-se familiar. Pedi informação. Não conseguia chegar no endereço anotado. Uma moça tentou me ajudar. Perguntou para várias pessoas. Nada. Bebi um copo d'água e respirei fundo. Os minutos corriam. Até que um senhor falou brevemente que era só atravessar a pista e eu já estaria lá.

Era um encontro. Eu tinha sede. Sede de olhá-lo nos olhos e ouvir suas histórias. Logo, avistei a casa de sobrado. Ele estava no segundo andar. Gritei e ele me viu. Desceu as escadas e me pediu que aguardasse.

O sol estava prestes a se pôr. Sentei-me no sofá. E, enquanto esperava, vi a lua de metal. Quantas vezes eu e ela já tínhamos nos encontrado... Mas sempre a via de longe. Dessa vez, ela sorriu p…

Folhas do soneto

Por: Bárbara Fragoso

Lá estava eu, imersa nos pensamentos e canções.
Precisava abrir as janelas da alma, respirar fundo e criar raízes.
Aos poucos, ramificações surgiram.
O sol já cintilava na palma das minhas mãos.
Sim! Eu podia criar o mais longo soneto.
Deixei-me levar pelos acordes que surgiram.
Nem o vento podia roubar as folhas do meu pensamento.