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Inusitado


Por: Bárbara Fragoso

Saia de pregas. Blusa branca de mangas compridas. Colete vermelho e botões dourados. Meia branca até o joelho. Cabelo bem arrumado e voz aquecida. Era dia de semana. Eu e os outros integrantes do coral entrávamos no ônibus para mais uma apresentação. O maestro disse que o local onde íamos era diferente. Pensei logo que não me surpreenderia.

O ônibus parou. Arrumei a gravata da minha roupa e estiquei a meia que escorregava. O Hino Nacional não saía da minha cabeça. Eu tinha medo de cantá-lo, pois me dava vontade de rir. Passaria vergonha se desse as minhas gargalhadas com o que a minha imaginação fértil criava.
Preferia cantar Go down Moses, Negro spiritual. Eu adorava quando um dos integrantes, de voz muito grave, fazia o solo: "When Israel was in Egypt's land: Let my people go,/ Oppress'd so hard they could not stand, Let my People go."

Mas, nesse dia, nem essa música, nem a francesa, nem a espanhola entraram no repertório. Tive que me conter com a Canção da Despedida, em japonês, e os olhares do maestro tentando me fazer sorrir. Enquanto cantávamos, um homem se levantou. Pensei que ele ia se retirar do local. Ilusão. Ele estendeu a cadeira e olhou a validade. Outro que estava perto tirou o boné e cheirou.

Cutuquei a soprano que estava ao meu lado. Foi uma cena muito engraçada. Sempre ri de besteiras. Fiquei vermelha. Vermelha. O maestro me olhou, sério. Aplausos. Quando fomos embora, descobri que estávamos em um manicômio.

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