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Mostrando postagens de 2012

Oser

No cenário, destacavam-se o brilho nos olhos do jovem e a sede de percorrer o mundo.O velho, conhecedor das línguas e costumes, entregou-lhe em palavras um talismã: "Na sua idade, você tem que viajar, até vender a sua cueca. Você tem que viajar."
A quilômetros e fronteiras de distância, o jovem contou o que se passara à menina sem manhãs e cheia de manhas. Ao digerir a tradução do cenário, a sintonia entre personagens e pretextos, ela deixou o medo de lado e seguiu. Lá pelas curvas do caminho, a garota voltou pelo trajeto para buscá-lo, já que Deus gosta de quem tem medo. "Você precisa atrever-se... Osar", ele completou. Ela ousou dizer que o verbo era "ousar". "Ser é ousar ser". As palavras de Hesse prevaleciam nas entrelinhas.

Bárbara Fragoso

Há caso

Que a efemeridade das mais volúveis respostas sejam constantes ao acaso. O acaso traz-me aqui para vomitar. O transitório edifica e, ao mesmo tempo, destrói. E, na mutação dos fatos, desabrocho singularidades indeterminadas. Exterminadas.

Bárbara Fragoso 

Prefácio pretérito

Eu já tinha medo de começar a escrever. Eram tantos nós que dava vontade de desistir. Choros sem velas. Via-me codificada, ao desmanchar-me em letras. Sílabas de mim formaram palavras, com ou sem sentido. Eram como se fossem o meu espelho. Assusto-me sempre que me leio. Até agora, tropeço em letras, que são membros do meu corpo. Eu tinha medo de começar a escrever, mas já que havia começado, optei por deixá-lo solto nas páginas que viriam. É... O medo se desmanchou ao manchar as minhas páginas mágicas, que não eram todas minhas.

Bárbara Fragoso 

Largada final

O vento leve batia nas pernas descobertas com saia. Cobriu a blusa branca de bolinhas pretas com o casaco fino que permitia o frio da noite ver os  seus braços finos arrepiados.

Afastou os óculos de aviador do rosto. Perambulavam, ela e a companhia, pelo espaço que abrigava a cúpula da capital. A menina de longos cílios não quis adoçar o momento. Pediu ao homem do carrinho uma pipoca salgada. O amigo, de olhos arregalados, optou pela porção grande e doce.
Desenterraram conversas e versos. Pipocas doces e salgadas se intercalavam nas risadas de confissões. Passado remoto, confuso e sem controle. Ah! Se pudesse percorrer o longo trajeto dos ministérios para alcançar as melhores palavras a serem solatradas, ela o faria com pressa. Quando o cronômetro do celular se desse conta da corrida, ela já estaria de volta, pronta para dar a largada final.

Bárbara Fragoso 

Escudo

Mal consegui arrumar toda a bagunça e mais bagunça chegou. A sala está cheia de caixas. Algumas, ainda não consegui abrir. Começaram a me ligar. Até agora, o telefone não parou. Já arranquei-o da tomada e, mesmo assim, ele solta grunidos. Não param de chegar cartas na minha caixinha de correio. Desconheço os remetentes. As mensagens no celular já ultrapassaram a capacidade da memória. Memórias do passado remoto exterminadas. Campo minado. Qualquer hora, a bomba-relógio pode tocar o alarme agudo, que me deixará surda, cega e muda. Por enquanto, enquanto há tempo, digo. Na verdade, não há mais tempo. E é por essa falta de tempo que estou ficando asfixiada. Preciso de ar. Preciso dizer. E essa necessidade de dizer também me sufoca. A pressão é grande e o tempo é curto. Corto-me os pulsos. Não há escuta nas escadas. Não há escudo.

Bárbara Fragoso 

Seca

Folhas de estrela secas  grudavam nas solas da cidade. Pessoas bem vestidas e sem vestidos pisavam nas folhas de estrela secas. E, não, somente nelas. Estrelas choravam com o frio de doer. Ossos se encolhiam.
Chocolates adoçavam o vento que encostava sem cautela na canela coberta. A lareira encheu a casa de fumaça. Foi uma desgraça. Escondi o meu rosto. Só achava graça!

Bárbara Fragoso 

Faíscas

Vidros embaçados. Ela e o tempo faziam questão de embaçá-lo.  Percorria com pressa. Entregava-se a cada quilômetro adiante. Águas passadas. Passos de outrem ficavam. Ousava-se dispor. Folhas secas, da cor dos seus olhos, acompanham e cercavam os pés. Descalços não estavam.
O trem logo passaria. Assim como a ventania estonteante. Enganchou os dedos dos pés calçados na linha. "Afaste-se. Você pode se machucar", disse a irmã mais velha. Acatou o apelo. Faíscas correram.

Bárbara Fragoso 

Vez ou outra

Vez ou outra, faço do meu corpo meu abrigo. Obrigo-me.
Brigo e reluto. Brinco. Perco-me. Encontro-me. Faço de mim meu esconderijo. Pique esconde.

Mesmo sem tanto pique, escondo-me nos meus armários almáticos desbotados. Uso-me de escudo. Sem escuta, na ponta dos pés. Portas se abrem. Encontro-me. Vez ou outra.

Perco-me.

Bárbara Fragoso 

Esquina

Viro a esquina. Permaneço na mesma calçada. Dou alguns passos e estou no mesmo lugar. Vejo janelas retangulares e quadradas escancaradas. Em algumas, vejo até a cor da cortina. A minha  continua fechada. A fachada não é breve. Anoitece. Os sonhos sugam fraquezas e medos. Depois, seguem por ali, e viram a esquina. Permaneço na mesma calçada, com os pés descalços.

Bárbara Fragoso 

Dias de poucas

Dias de poucas palavras, de poucos palcos, De poucos sorrisos.
Dias de poucas maneiras, de poucas mentiras, De poucos perigos.
Dias de poucos medos, de poucas piadas, De poucos amigos.
Dias de poucos encontros, de poucos festejos, De poucos pedidos.
Dias de poucas palavras. De porcas palavras. Palavras cuspidas.

Bárbara Fragoso 

Tudo era nada

Gritei, mas o mundo não me ouviu. Nem sequer o meu vizinho. Um amargo café me satisfazia por um dia inteiro. As minhas pernas, que mal se seguravam em pé, tremiam mais do que no inverno. Sem cor nos olhos, transformei em tons cinza e pastel os esquadros que surgiam em minha mente e no farfalhar dos meus passos. 

As paredes do corredor branco, que davam acesso ao meu quarto, misturavam-se aos quadrados brancos do piso da casa. Tudo era branco. Confundia-me. Tudo era a mesma coisa. Tudo era nada. O que havia, já não mais via. Talvez, nunca tivesse existido. Olhos cor de folha seca secavam as mentiras que vira e cegavam, demoradamente, a falsa felicidade depositada.

Bárbara Fragoso 

Plateia

É. Deveria estar perdendo o próprio tempo. Aliás, palavras. Palavras, as quais encheu a boca para vomitá-las. Aliás, encheu a folha para escrevê-las. Fechou os olhos para imaginar cada sentido que elas poderiam trazer. Agora, restam estragos. 
Trago-me e, diante de mim, perco-me. Faço da minha cara um circo. Nego-me, diversas vezes, ser plateia de mim mesma, mesmo sabendo que não deveria abrir mão de me assistir. Assusto-me.

Bárbara Fragoso 

Devidos olhos

Olhos que não são de vidro
Devidos olhos vividos Vívidos olhos vi Vi nossas vidas juntas ali
Vidros não quebravam-se como outrora. Só não era eu a autora. Eu e tu. Juntos, definíamos as cores dos contos  Contávamos risos e ríamos sem descontos
Em ti, depositei meus cacos mais lúcidos, Calculei as nossas demoras. Demoro-me em ti.  Cautelosamente, moramo-nos. Amamo-nos.

Bárbara Fragoso 

Espanto

Por: Bárbara Fragoso
Sem sombrinha, sem ar, sem bisa e brisa. Sombras de sobras sombrias retidas restavam. Restavam, sem ar, sem bisa e brisa,  Retidas e sombrias sobras das sombras.

Descompasso

Óh! Ela já não mais se reconhece ao olhar-se no espelho. Perdeu-se ao tentar se achar. Tempo sem tempo para passar. A vi perambular pelas calçadas calçadas de ausências. Vi o vestido azul rodar. Era um descompasso que não passava, sem apagar as desculpas e culpas de uma morte lenta.

Bárbara Fragoso 

Confiança fiada

Ela viu que a tal confiança deveria ser desconfiada. Pagou caro. Pegou o carro. Confiou em milhares de cores à sua frente. Enfrentou as curvas e semáforos vermelhos. Quando tudo parecia estar perfeito, logo achou que a perfeição merecia ser desconfiada. Desceu e deu passos para trás. Ainda que sorrisse, desconfiava dos risos. Ainda que não houvessem palavras, desconfiava da ausência de sílabas. Ainda que não tivessem motivos para desconfiança, desconfiava da falta de motivos. Desconfiava da desconfiança que não precisava ser desconfiada. Era tudo conversa fiada.

Bárbara Fragoso 

Eu já

Eu já saí da minha cidade para fazer entrevista. Eu já entrei no camarim e cumpri o que deveria fazer. Eu já tinha que ir embora ao fim da apresentação. Eu já não tinha tempo para ir ao restaurante. Eu já neguei o convite. Eu já não dei ideia naquele dia. Eu já tinha um foco, independente das horas. Eu já tive overdose com ilusões. Eu já perdi o voo para voltar para casa. Eu já recebia mensagens. Eu já tentava me manter reservada. Eu já conversava sobre ética. Eu já achava que a distância atrapalhava. Eu já pensei no superficialismo. Eu já me cansei do tempo. Eu já tomei um choque no sábado à noite. Eu já havia descoberto. Eu já precisava partir. Eu já aguardava para descer na próxima estação. Eu já não podia te dar atenção. Era tarde demais. Eu já havia partido. Eu já nem lembrava mais disso. Já achei por acaso o que havia escrito. Já não havia segredos.

Bárbara Fragoso 

Lembro de você, Perona

Blen blen blen. O sino tocava. Eu ainda estava no trânsito. As lágrimas corriam. Não conseguia controlar o choro. Era uma noite triste e vazia. Entrei na igreja lotada e a música dilarerava a minha alma. Muita gente. Muitos choravam. Eu não conseguia vê-lo. Pedi a Deus que me desse forças e me segurasse, pois eu precisava me despedir.
Dor. Dor de cabeça. Tempos de criança. Temperos catequéticos. Ele me ensinava matemática, filosofia, falava de Deus e de Maria. Conselhos e confissões. Eu não queria aceitar aquilo. Rosto pálido. Ele, de olhos fechados, não mais me via.
Amigo, lembro de você a cada dia.

Bárbara Fragoso