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Mostrando postagens de Janeiro, 2012

Espanto

Por: Bárbara Fragoso
Sem sombrinha, sem ar, sem bisa e brisa. Sombras de sobras sombrias retidas restavam. Restavam, sem ar, sem bisa e brisa,  Retidas e sombrias sobras das sombras.

Descompasso

Óh! Ela já não mais se reconhece ao olhar-se no espelho. Perdeu-se ao tentar se achar. Tempo sem tempo para passar. A vi perambular pelas calçadas calçadas de ausências. Vi o vestido azul rodar. Era um descompasso que não passava, sem apagar as desculpas e culpas de uma morte lenta.

Bárbara Fragoso 

Confiança fiada

Ela viu que a tal confiança deveria ser desconfiada. Pagou caro. Pegou o carro. Confiou em milhares de cores à sua frente. Enfrentou as curvas e semáforos vermelhos. Quando tudo parecia estar perfeito, logo achou que a perfeição merecia ser desconfiada. Desceu e deu passos para trás. Ainda que sorrisse, desconfiava dos risos. Ainda que não houvessem palavras, desconfiava da ausência de sílabas. Ainda que não tivessem motivos para desconfiança, desconfiava da falta de motivos. Desconfiava da desconfiança que não precisava ser desconfiada. Era tudo conversa fiada.

Bárbara Fragoso 

Eu já

Eu já saí da minha cidade para fazer entrevista. Eu já entrei no camarim e cumpri o que deveria fazer. Eu já tinha que ir embora ao fim da apresentação. Eu já não tinha tempo para ir ao restaurante. Eu já neguei o convite. Eu já não dei ideia naquele dia. Eu já tinha um foco, independente das horas. Eu já tive overdose com ilusões. Eu já perdi o voo para voltar para casa. Eu já recebia mensagens. Eu já tentava me manter reservada. Eu já conversava sobre ética. Eu já achava que a distância atrapalhava. Eu já pensei no superficialismo. Eu já me cansei do tempo. Eu já tomei um choque no sábado à noite. Eu já havia descoberto. Eu já precisava partir. Eu já aguardava para descer na próxima estação. Eu já não podia te dar atenção. Era tarde demais. Eu já havia partido. Eu já nem lembrava mais disso. Já achei por acaso o que havia escrito. Já não havia segredos.

Bárbara Fragoso 

Lembro de você, Perona

Blen blen blen. O sino tocava. Eu ainda estava no trânsito. As lágrimas corriam. Não conseguia controlar o choro. Era uma noite triste e vazia. Entrei na igreja lotada e a música dilarerava a minha alma. Muita gente. Muitos choravam. Eu não conseguia vê-lo. Pedi a Deus que me desse forças e me segurasse, pois eu precisava me despedir.
Dor. Dor de cabeça. Tempos de criança. Temperos catequéticos. Ele me ensinava matemática, filosofia, falava de Deus e de Maria. Conselhos e confissões. Eu não queria aceitar aquilo. Rosto pálido. Ele, de olhos fechados, não mais me via.
Amigo, lembro de você a cada dia.

Bárbara Fragoso