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Mostrando postagens de Julho, 2012

Largada final

O vento leve batia nas pernas descobertas com saia. Cobriu a blusa branca de bolinhas pretas com o casaco fino que permitia o frio da noite ver os  seus braços finos arrepiados.

Afastou os óculos de aviador do rosto. Perambulavam, ela e a companhia, pelo espaço que abrigava a cúpula da capital. A menina de longos cílios não quis adoçar o momento. Pediu ao homem do carrinho uma pipoca salgada. O amigo, de olhos arregalados, optou pela porção grande e doce.
Desenterraram conversas e versos. Pipocas doces e salgadas se intercalavam nas risadas de confissões. Passado remoto, confuso e sem controle. Ah! Se pudesse percorrer o longo trajeto dos ministérios para alcançar as melhores palavras a serem solatradas, ela o faria com pressa. Quando o cronômetro do celular se desse conta da corrida, ela já estaria de volta, pronta para dar a largada final.

Bárbara Fragoso 

Escudo

Mal consegui arrumar toda a bagunça e mais bagunça chegou. A sala está cheia de caixas. Algumas, ainda não consegui abrir. Começaram a me ligar. Até agora, o telefone não parou. Já arranquei-o da tomada e, mesmo assim, ele solta grunidos. Não param de chegar cartas na minha caixinha de correio. Desconheço os remetentes. As mensagens no celular já ultrapassaram a capacidade da memória. Memórias do passado remoto exterminadas. Campo minado. Qualquer hora, a bomba-relógio pode tocar o alarme agudo, que me deixará surda, cega e muda. Por enquanto, enquanto há tempo, digo. Na verdade, não há mais tempo. E é por essa falta de tempo que estou ficando asfixiada. Preciso de ar. Preciso dizer. E essa necessidade de dizer também me sufoca. A pressão é grande e o tempo é curto. Corto-me os pulsos. Não há escuta nas escadas. Não há escudo.

Bárbara Fragoso