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Escudo

Mal consegui arrumar toda a bagunça e mais bagunça chegou. A sala está cheia de caixas. Algumas, ainda não consegui abrir. Começaram a me ligar. Até agora, o telefone não parou. Já arranquei-o da tomada e, mesmo assim, ele solta grunidos. Não param de chegar cartas na minha caixinha de correio. Desconheço os remetentes. As mensagens no celular já ultrapassaram a capacidade da memória. Memórias do passado remoto exterminadas. Campo minado. Qualquer hora, a bomba-relógio pode tocar o alarme agudo, que me deixará surda, cega e muda. Por enquanto, enquanto há tempo, digo. Na verdade, não há mais tempo. E é por essa falta de tempo que estou ficando asfixiada. Preciso de ar. Preciso dizer. E essa necessidade de dizer também me sufoca. A pressão é grande e o tempo é curto. Corto-me os pulsos. Não há escuta nas escadas. Não há escudo.

Bárbara Fragoso 

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