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Mostrando postagens de 2013

Esta es la juventud del Papa!

Texto e fotos: Bárbara Fragoso 

Arrisco-me escrever sobre a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Risco tudo o que escrevi e tento começar novamente. Não é fácil colocar no papel a infinidade de sensações e experiências que eu e milhares de peregrinos do mundo inteiro vivemos. Foram dias lindos, que podem ser lidos de diversas formas. Cada um de nós tem diversas histórias para contar. E, também, não é porque o Papa não está mais no Brasil que a JMJ acabou. A Jornada é o início das constantes transformações na vida de muitos jovens, inclusive na minha. 


Segunda-feira, 22 de julho de 2013. A previsão era de que Francisco chegaria, às 17h, no centro do Rio de Janeiro. Uma mala no ombro e outra na mão. Com pressa, eu e a minha irmã Bianca descíamos a caminho do ponto de ônibus, na praia de Copacabana. O relógio marcava 15h e pouco. Os ponteiros corriam. “Moça, precisamos ir à Catedral de São Sebastião. Você sabe em qual parada devemos descer?”, perguntamos à carioca que estava sentada no fi…

Caixa Postal

Oi, amiga de Clarice,
Aqui é a Menina sem manhã. Hoje, o nosso contato vem por causa da dor. A tua dor e a minha por causa do amor. Gostaria te contar uma história. Fique à vontade para ouvir. Se não quiser, eu te entendo.
Há uma verdade que me corrói todos os dias. Ela tira a minha paz e me faz morrer todo segundo. Há uma verdade que não quero acreditar. Ela suga as minhas forças e me faz pensar que o que vivi não passa de ilusão. Olhos insanos que mentiram para mim. Não sei se a maior mentira foi a dos meus olhos, ou da frieza de outros olhos claros que amei.
O voo atrasou. Eu chegaria à Normandie, na França, por volta da meia-noite. Enquanto esperava pelo embarque, na sexta-feira, ele me ligou. Desejou boa viagem e me avisou que passaria o feriado com os primos e amigos. Não reclamei e preferi não pensar demais.
Dois meses se passaram. Enquanto virava de um lado para o outro na cama, em uma das minhas crises de insônia, não acendi o abajur. Eram quatro e meia da manhã. Uma voz, que s…

Frio de um verão

As estações passaram. Fingiram passar. As pétalas caíram. Fingiram cair. As folhas secaram. Os olhos cor de folha seca restaram fixos e sem cor. A menina encostara-se no pequeno espaço entre a porta e a transparente estante de livros. Colocara o telefone no chão. A última ligação encerrara muda.

Sentiu-se imunda. Desconfiara de tudo o que a fazia lembrar da existência dele. Desconfiara da forma como o sorriso, quase perfeito, se desenhou. As palavras lisas e lindas foram lidas ambiguamente. O silêncio prevaleceu no frio daquele verão. 

Ela permaneceu estática, mas, agora, na calçada sem pintura. Na pressa do relógio, as pálpebras temeram descansar. Acostumara-se com a rouquidão. O silêncio era a mão amiga. Decidiu-se. Subiu montanhas e respirou outonos tentando esquecê-lo.

Tentou livrar-se do amor. Escondeu de si mesma a vontade de tê-lo consigo. Os sonhos nunca deixam de ser sonhos, se forem sonhados. "Um grande amor não é tão grande se não tiver sofrimento?", questionara-se…

Sem fantasmas

Confessara, sem ar obsoleto e fantasmas, que o coração dele fizera parte dos pertences dela. Encheu-se de si e de coragem, ao responder-lhe à altura: "E como te dizer que essa sintonia já e capaz de encher-me de paz? Calo-me e, aos poucos, escuto o que o coração me fala de mansinho. O volume é tão baixo que preciso me desligar do que se passa. Dou alguns passos. Preciso pegar um copo de vidro e escorá-lo na parede do peito. Eis que já consigo escutá-lo. Tum tum. Tum tum."

Bárbara Fragoso

À Pandora

Frajola, menina letrada.
De longe, sagaz, soberba e centrada.
Aproximo-me de ti
E a vejo lindamente desvairada.

Frajola, mulher Bárbara.
És sonho, insônia, piadas enfadonhas.
E como não rir de ti, ou para ti?
Sentar-me-ei a cantar ao violão.

Com este sim, quando afinado.
Dar-te-ei pobres melodias
contudo, carregadas de inspiração
Inspira, ação.

Tem vida

Ainda tem vida.
Ela matou-o, dentro de si.
Ainda tem voz. Tem vida.
Ela matou-o para que pudesse viver. 
E ainda tem vida.
Não tem mais nada a ver. 
Uma vírgula.
Vergonha das idas e vindas.
É. E, mesmo sem vida, a voz dele ainda tem vida.

Bárbara Fragoso 

À convidada

Há um vento que balança as roupas no varal
& ele é rosa, & é azul, & é verde & vermelho...
& eu vejo as cores que o Tempo tem
& ele arrasta o Vento, & passa por mim
ondulando os meus cabelos poucos & finos
& os meus anos dopados de estações febris:
de meses, de semanas, & de dias vacilantes
& as estações também têm cores
& são verdes, & amarelas, & brancas...
& a fuligem dos muros me conta histórias
descrevendo o Tempo & o que ele faz
& tudo é fuligem, & Vento, & febre & delírio
& tudo é parte de um poema difícil de ser lido,
difícil de ser lido, & de partir o coração
como a imagem de um homem sentado à mesa,
jantando sozinho: um prato, uma taça de vinho,
uma música muito lenta, & depressiva...
... é uma imagem muito triste, realmente.

A Honestidade é uma dama muito alta,
muito alta & incrivelmente bem vestida
incrivelmente bem vestida & inconveniente.
Mas quem somente diz o que é bom ouvir
é, sim, …

Tem pó

Tem?
Tem.
Tem tempo?
Tem.
Tem tempo sem tempero.
É, tem.
E tempestade, hein?
Tem.
– Ah! Tem piedade!
Tem piedade?
Tem π e idade. E tempo?
Tem pó.
Bárbara Fragoso

Sem métrica

O fado deselegante da menina não respirava. A alma dela era vítima de si, do ar sustenido e das cores lá de fora. Lá fora, não dava para vê-la. Lá de dentro, não dava para ver o que passara lá fora. Ela fora mergulhar-se em si, ao dedilhar notas abafadas, no quarto sem feixe de luz. Tons alternados e sem escala revelaram o que corria por dentro. Amargamente, engolia-se. Os ânimos não se acalmavam. Somente aquela música – traduzida pelo piano desafinado e ausente de alguns tons – que fugia da métrica. Fugia de si. Cantos sem encantos, que contaram as cotas, às custas de uma vida.

Bárbara Fragoso 

Cata-vento

Entoa o vento
À toa 
E lento Lento vento 
Sem talento Tá lento 
O cata-vento.
Bárbara Fragoso