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À convidada

Há um vento que balança as roupas no varal
& ele é rosa, & é azul, & é verde & vermelho...
& eu vejo as cores que o Tempo tem
& ele arrasta o Vento, & passa por mim
ondulando os meus cabelos poucos & finos
& os meus anos dopados de estações febris:
de meses, de semanas, & de dias vacilantes
& as estações também têm cores
& são verdes, & amarelas, & brancas...
& a fuligem dos muros me conta histórias
descrevendo o Tempo & o que ele faz
& tudo é fuligem, & Vento, & febre & delírio
& tudo é parte de um poema difícil de ser lido,
difícil de ser lido, & de partir o coração
como a imagem de um homem sentado à mesa,
jantando sozinho: um prato, uma taça de vinho,
uma música muito lenta, & depressiva...
... é uma imagem muito triste, realmente.

A Honestidade é uma dama muito alta,
muito alta & incrivelmente bem vestida
incrivelmente bem vestida & inconveniente.
Mas quem somente diz o que é bom ouvir
é, sim, nosso pior inimigo, & o mais cruel.

O meu amor, quando dormia, silenciava o Mundo.
Mas não há mais tempo para o amor, Bárbara.
É somente a ironia que habita em nossos corações.
Um grande amor nunca parte sem deixar estragos,
& nunca retorna sem causá-los – oh, sim! sim!
& se eu quisesse que me amassem, pagaria.
& não é preciso ter razão para saber; não é:
razão é o que damos a quem a tem, de sobra;
& desprezo é destinado aos que não tem razão.
Também o paraíso é para quem o merece.
Mas, ninguém o merece, realmente; e, assim,
não há isto de... um paraíso. Não!, não há!
& o seu grande pecado é haver nascido.

Depois que eu morrer, não quero absolvição.
Como nas religiões de salvação,
também a esperança é um ópio para o povo.

A única e verdadeira bem-aventurança
para qualquer ser humano é, no final...
ter uma morte rápida, tranquila & indolor.

& agora, já, neste exato momento,

não há mais nada que eu queira tanto dizer:
nunca fui o cara triste de uma canção de amor.

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