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Oi, amiga de Clarice,

Aqui é a Menina sem manhã. Hoje, o nosso contato vem por causa da dor. A tua dor e a minha por causa do amor. Gostaria te contar uma história. Fique à vontade para ouvir. Se não quiser, eu te entendo.

Há uma verdade que me corrói todos os dias. Ela tira a minha paz e me faz morrer todo segundo. Há uma verdade que não quero acreditar. Ela suga as minhas forças e me faz pensar que o que vivi não passa de ilusão. Olhos insanos que mentiram para mim. Não sei se a maior mentira foi a dos meus olhos, ou da frieza de outros olhos claros que amei.

O voo atrasou. Eu chegaria à Normandie, na França, por volta da meia-noite. Enquanto esperava pelo embarque, na sexta-feira, ele me ligou. Desejou boa viagem e me avisou que passaria o feriado com os primos e amigos. Não reclamei e preferi não pensar demais.

Dois meses se passaram. Enquanto virava de um lado para o outro na cama, em uma das minhas crises de insônia, não acendi o abajur. Eram quatro e meia da manhã. Uma voz, que sussurrava, me induzia a buscar algo. Banho de água fria. Lembrei-me de quando passara pelo ilhote francês Mont Saint Michel e a saudade dele apertava.

Desconheci o homem louro, de olhos verdes e sorriso discreto, o qual eu dava “boa noite” todos os dias. Na foto, divulgada na internet, ele aconchegava a menina de nome esquisito no bêbado colo dele. Foi pior do que filme de terror sem pipoca.

Com as pernas enfraquecidas, não ousei pisar no chão. Queria vomitar. Queria me livrar daquela realidade. Queria matá-lo dentro de mim. Queria fazer tanta coisa e, ao mesmo tempo, não tinha forças para fazer nada. O corpo tremia e as minhas mãos estavam frias. Correram rios de mim. (...)

Menina sem manhã



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